Este livro consiste numa recolha de reflexões realizadas entre dois regressos do autor a Portugal, o primeiro antes de iniciar a carreira universitária, o último logo depois de mudanças determinantes nela. A migração é o entre-lugar certo para entender Luís de Camões e os seus intérpretes mais voluntariosos e influentes (Manuel de Faria e Sousa, António José Saraiva e Jorge de Sena foram, como ele, emigrantes). A vida noutras paisagens e culturas permite adquirir o distanciamento necessário para, sem deixar de ver a árvore, vislumbrar a floresta.
Camões como autor não é o que tem parecido ser. Não é tão independente, ousado ou desinteressado como se tem dito, nem é o cantor do povo que direita e esquerda nele quiseram ver. Queixa-se insistentemente de que a poesia, a cultura e as artes são desdenhadas em Portugal, mas aquilo que incomoda Camões pessoalmente é a falta do «favor com que mais se acende o engenho», isto é, a falta de subvenção mecenática – e não, como erradamente se tem visto, a «apagada e vil tristeza» da pátria. Queixa-se, como é fama, de ser vítima de infortúnios e miséria; foi, porém, tratado pela Coroa de modo invulgarmente favorável.
Grande poeta épico e lírico, capaz duma fluência e energia inigualáveis, Camões levanta, ao mesmo tempo, problemas terríveis. Trinta Anos de Camões é uma colectânea de crítica literária, filológica e histórico-cultural que pretende contribuir para uma compreensão mais genuína da sua poesia, ao arrepio das interpretações excepcionalistas e exclusivistas predominantes desde há séculos.
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- Sumário
- Prefácio
- ¶01 A Orient/Ação Humana em Os Lusíadas: alguns aspectos
- ¶02 Camões e Tasso, ficções em diálogo
- ¶03 A dinâmica do herói na viagem d’Os Lusíadas
- ¶04 A casca de Tritão
- ¶05 Em torno da recepção da poesia camoniana no século XVI
- ¶06 Manuel de Faria e Sousa e Manuel Pires de Almeida
- ¶07 Presença da Odisseia em Camões
- ¶08 Narração retórica, narração poética e Os Lusíadas de Camões
- ¶09 O som e a fúria d’Os Lusíadas
- ¶10 Entrevista ao jornal I no 10 de Junho de 2009
- ¶11 The Euhemerism of Lactantius in Camões’s Lusiads
- ¶12 Camões e o lirismo confessional na epopeia quinhentista
- ¶13 A propósito do soneto O dia em que eu nasci e do seu autor
- ¶14 Ainda a propósito do soneto O dia em que eu nasci moura e pereça
- ¶15 Waves, winds, words as micro-signifiers of the non-canonical: Diogo Bernardes
- ¶16 O clássico pelo qual os outros clássicos se medem
- ¶17 O problema da edição princeps e as edições do século XVI
- ¶18 Entre 1801 e 1900: edições da epopeia na Biblioteca D. Manuel II
- ¶19 As traduções espanholas de Os Lusíadas
- ¶20 Apresentação da tradução de Os Lusíadas para espanhol por Aquilino Duque
- ¶21 Sem exclusões: leituras de poetas portugueses no Siglo de Oro
- ¶22 Post-lmperial Bacchus: the politics of literary criticism in Camões studies 1940-2001
- ¶23 O camonismo: da sinagoga à cabala
- ¶24 A fortuna crítica de Camões, em modo de post-scriptum
- ¶25 Camões em Jorge de Sena onde está a diferença
- ¶26 Os Lusiadas de Luís de Camões por caminhos nunca dantes tratados
- ¶ Recensão de: Rita Marnoto (coord.), Comentário a Camões
- ¶ Recensão de: John V. Fleming, Luís de Camões: The Poet as Scriptural Exegete
- Proveniência dos capítulos
- Índice Onomástico